A Toca do Túlio

Maio 24, 2010

Polícias esclarecem ministro

Filed under: Forças de Segurança — tuliohostilio @ 8:51 pm
O maior sindicato da PSP reage com indignação ao comentário que o ministro da Administração Interna hoje fez sobre a manifestação de polícias marcada para a próxima quinta-feira. 
Rui Pereira disse não compreender o protesto, porque dentro da administração pública, os polícias estão este ano a ser beneficiados, sendo praticamente os únicos com aumentos salariais. 
Em resposta, a Associação Sindical dos Profissionais de Policia lembra ao ministro que a manifestação está marcada há mais de um mês e que nada tem a ver com aumentos salariais. Em causa está o novo estatuto profissional, que o Presidente da ASPP, Paulo Rodrigues, diz ser lesivo da carreira dos polícias. 
“O que houve foi um aumento de 1,5% no suplemento das forças e serviços de segurança que   não compensa as reduções no suplemento de patrulha e nalguns suplementos como é o de especial de polícia (…). Os polícias não exigem aumentos salariais, o que exigimos é um estatuto que permita a progressão na carreira, para que os profissionais sintam motivados”, explicou Paulo Rodrigues.
In RR 24/05/2010

Manifestação de polícias

Filed under: Forças de Segurança — tuliohostilio @ 8:49 pm

O ministro da Administração Interna diz não compreender as razões que motivam a manifestação da PSP agendada para quinta-feira. Esta manhã, Rui Pereira lembrou no Porto que, em tempo de crise, foram concedidos aumentos salariais nas forças de segurança, ao contrário do que acontece no quadro da função pública.

É com números que o ministro da Administração Interna tenta desmontar qualquer argumento que sirva de base à manifestação. “Justamente este ano, em que a função pública não tem aumentos, existe um aumento para a PSP e para a GNR. Nós estamos a actualizar o suplemento das forças de segurança, que vai aumentar de 14.5 para 20% das remunerações no prazo de três anos e mesmo este ano aumenta 1,5%. Quero recordar que o suplemento de fardamento, que no ano passado era de 60 euros, este ano aumenta para 150 euros e queria recordar que, no prazo de quatro anos, esse aumento vai ser de 60 euros para 300 euros. Em suma, toda a gente sabe que o Governo e o ministro da Administração Interna estão a fazer tudo para valorizar as carreiras policiais”, disse Rui Pereira.

O ministro da Administração Interna fez estas declarações à margem da inauguração de novas esquadras da Polícia de Segurança Pública no Porto. 

A Associação Sindical dos Profissionais de Polícia (ASPP) mantém a acção de protesto, apesar de já terem sido garantidas as promoções previstas para este ano. A ASPP reclama também alterações ao estatuto profissional .

A manifestação está marcada para dia 27 de Maio.

In RR 24/05/2010

Governo de coligação (inglês) quer altos funcionários públicos a andar de transportes como os outros cidadãos

Filed under: Imprensa Nacional — tuliohostilio @ 9:54 am

O programa de austeridade britânico que a coligação entre conservadores e liberais-democratas vai apresentar passa pela aprovação de 21 novas leis em ano e meio, noticiaram ontem dois jornais, Sunday Telegraph e Sunday Mirror, com base num rascunho do discurso que a Rainha vai fazer amanhã perante o Parlamento.

As palavras de Isabel II, na sessão inaugural dos deputados, costumam ser um dos segredos mais bem guardados entre o Governo e o Palácio de Buckingham. Agora são conhecidas de todos, com dois dias de avanço.

A monarca ia dizer que “liberdade, justiça e responsabilidade” estão no coração do programa legislativo com novas leis. E que a prioridade deste novo Governo é “restaurar o crescimento económico e acelerar a redução do défice estrutural”.

A fuga para a imprensa constitui um profundo embaraço para o novo Executivo britânico, liderado por David Cameron. Ainda por cima acontece na véspera do dia em que a coligação vai anunciar uma primeira série de planos económicos para combater o gigantesco défice de 11,1% do PIB e reduzir a despesa em pelo menos seis mil milhões de libras ainda no decorrer deste ano.

Os jornais de ontem já levantavam um pouco o véu sobre o impacto que as novas medidas de austeridade poderão ter, sem esperar pela apresentação do orçamento rectificativo a 22 de Junho. Entre 300 mil e 700 mil funcionários públicos poderão ficar desempregados nos próximos anos, fruto das reformas que a coligação conservadora-liberal-democrata planeia fazer em ministérios e em vários serviços públicos, avançou o Sunday Times.

As mais afectadas serão as pessoas que trabalham na saúde, incluindo médicos e enfermeiros, os funcionários autárquicos, polícias e civis que trabalham nas esquadras do Reino Unido. Também o Ministério da Defesa tenciona eliminar um terço dos gastos administrativos, cortando até 20 mil postos de trabalho.

Além disso, os funcionários públicos terão cortes em viagens de táxi, avião e hotéis. Os secretários de Estado e outras altos funcionários serão incentivados a viajar de transportes públicos como qualquer outro cidadão. Também estão previstos cortes naquilo que em inglês se chamam quangos – organismos privados que oferecem serviços públicos mas que são financiados pelo Governo.

Também no Foreign Office, responsável pelas relações externas, haverá encerramento de escritórios depois de uma auditoria ter revelado que há várias agências governamentais a operar em locais distintos na mesma cidade. Exemplo disso são os escritórios do Alto Comissariado, da Agência de Fronteiras, do Departamento de Desenvolvimento Internacional e do British Council em Abuja, capital da Nigéria. A sua fusão pouparia 23 milhões de euros ao Estado britânico.

O Independent on Sunday noticiou, por sua vez, que o Governo tenciona apresentar legislação para taxar os bancos em oito mil milhões de libras, três vezes mais do que era inicialmente suposto. Algo que, diz o jornal, pode também indicar que o novo orçamento contenha o aumento da taxa de IVA.

 IN DN 24/05/2010

Maio 17, 2010

Guerra é Guerra

Filed under: Forças de Segurança — tuliohostilio @ 7:08 pm

Foi colocado recentemente nas bancas o livro “GUERRA É GUERRA” – Um Oficial da GNR no Iraque, da autoria de Miguel Costa Barreto, Major de Infª da Guarda Nacional Republicana. De acordo com Paulo Portas, “este é um livro de missão, o sr. Major Costa Barreto não nos traz uma narrativa épica, não escreveu uma aventura, não toma a fria posição de um historiador nem, sequer, a confortável distância da testemunha. É um livro escrito na primeira pessoa, uma história em primeira mão, a vivência humana de um oficial da Guarda”.

Na minha opinião trata-se de uma iniciativa louvável que contribui para abrir a instituição à sociedade e para afastar algumas imagens do passado a que alguns sectores, por diversos tipos de conveniências, ainda a tentam associar.

Túlio Hostílio

Maio 12, 2010

A História do Sargento Formiga

Filed under: Sem-categoria — tuliohostilio @ 7:21 pm

Notas Prévias

O texto que agora aqui publico, escrevi-o já em 2006 como comentário no blog da ANS/GNR, e quase já me tinha esquecido dele, para minha surpresa aterrou no meu mail. Antes que alguém assuma a sua paternidade, porque o que não faltam para aí são pais inférteis desesperados para percorrerem as vias rápidas da adopção, decidi publicá-lo.

Não obstante ser um Sargento que assume o papel central da história, a personagem encaixa perfeitamente na generalidade dos funcionários públicos, essa “raça maldita” que alguém um dia jurou erradicar da face da terra, ou então torná-la de tal forma subserviente que jamais ousasse sequer pensar em reclamar do quer que fosse.

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência……..
Esta história foi inspirada numa fábula de La Fontaine, tal como a versão cinematográfica do Crime do Padre Amaro (onde intervém em grande estilo, a Soraia Chaves, exemplificando, para o grande público, as diversas posições e artes do Kama Sutra), se inspirou no livro homónimo do Eça de Queiroz.

Agradecimentos

À minha grande musa inspiradora Aldirene, actualmente quadro superior do grupo Telefónica, ex-miss Belo Horizonte, com quem travei conhecimento numa viagem que fiz ao Brasil, país que a partir daí começou a fazer parte integrante e constante do meu roteiro.
Quando estamos mais afastados em termos de milhas áreas, esta minha musa inspiradora nos dias pares envia-me mail’s com histórias da luta do bem contra o mal, sobre Jesus Redentor, as Cartas de S. Paulo aos Coríntios, bem como citações dos Salmos adaptados à vida dos nossos dias, e nos dias impares remete-me outros, cujo conteúdo até faria corar o José Vilhena nas suas descrições mais pitorescas, além de falarmos, diariamente, através do MSN, jogando ao “despe-despe” “on line”.

 

Índice

I. A Chegada

II. A Produtividade

III. “A apertada supervisão”

IV. Chega um Gestor

V. O Gestor em acção

VI. Epílogo

 

I – A chegada

Acabado que foi o Curso de Formação, o recém promovido Sargento Formiga, de seu nome Armando dos Santos Formiga, é colocado no Posto de Vila Aluída, por escolha, destinando-se a Comandante do Posto.
Indo substituir um outro camarada, muito experiente na “arte de bem comandar todo o Posto”, o qual nos últimos dois anos tinha sido nomeado para todos os cursos possíveis e imaginários para o desempenho daquela função, desde informática, a liderança, a atendimento ao público, bem como, dominava na perfeição toda a problemática da investigação criminal, do ambiente, processo penal, etc, etc, etc. Em suma um verdadeiro às. Mas entretanto viera a promoção e com ela as malas tiveram de ser feitas apressadamente, rumando em direcção ao Sul (ao que consta o efectivo do Posto no Natal anterior tinha-lhe oferecido um livro com um nome muito semelhante, enfim coincidências da vida), acabando por aterrar, como gerente de uma messe, algures entre Sagres e Vila Real de Santo António.

Feita que foi a reunião da praxe com o efectivo, a visita às entidades locais, a ronda à zona de acção e o relatório de posse comando, lá começou o Sargento Formiga a mourejar cheio de energia.

II – A Produtividade

Todos os dias, o Formiga, depois de ter atendido o telefone e telemóvel de serviço, um sem número de vezes durante a noite, chegava bem cedo, rondava, inspeccionava, escalava, aquilo era uma roda-viva, saindo sempre noite dentro.

Rapidamente se começou a destacar dos seus pares, devido à motivação que conseguiu imprimir aos seus subordinados e à dinâmica do serviço prestado em termos de segurança às populações que servia, o que lhe mereceu rasgados elogios das autoridades locais e da cadeia hierárquica onde estava inserido.

Entretanto, havia sido encomendado um estudo a uma empresa de consultadoria, dessas que agora pululam aí pelo mercado e que têm receita para tudo, o qual recomendava de uma forma acintosa que todos os Postos cujo desempenho fosse do tipo daquele que era demonstrado pelo de Vila Aluída, deveriam ser alvo de uma “apertada supervisão”, porque se os resultados já eram muito bons, com esta “apertada supervisão”, certamente e sem sombra de dúvidas, a produtividade iria aumentar de forma exponencial.

III – “A apertada supervisão”

Para efectuar esta “apertada supervisão”, foi nomeado o Capitão Gancho, o qual começou, imediatamente, a preparar enormes e bem estruturados relatórios, ao mesmo tempo que padronizou o horário de entrada e saída do Formiga, chamando-o ao gabinete onde fez questão de lhe dizer em tom solene e admoestador: – O senhor a partir de hoje chega às 09.00 e sai às 17.00, não o quero nem com um minuto de atraso, senão terei de proceder em conformidade. De tudo o que fizer terá de me dar conta para posterior aprovação. Aqui tem o seu cartão de ponto para meter na máquina todos os dias. Isto não é por mal, mas como compreende tem de haver regras, senão grassa a anarquia e a anarquia é inimiga visceral da hierarquia.

Como não poderia deixar de ser, lá saiu o Formiga triste e cabisbaixo, sentindo-se totalmente limitado nos seus movimentos e acção de comando.

Para executar cabalmente a missão que lhe tinha sido determinada, o Capitão Gancho de imediato sentiu necessidade de dois adjuntos para o ajudar a preparar os relatórios e na organização do expediente geral, arquivo e comunicações, requisitou o Oficial de Alta Escola e o Gangas, ambos com uma pós graduação em Segurança Geral, tirada em regime de “e-learning”, numa universidade virtual americana.

O escalão superior estava cada vez mais encantado com os relatórios do Capitão Gancho, dado que desde que estava devidamente assessorado, estes já incluíam gráficos com indicadores e análise de tendências que eram mostradas em reuniões, provando-se assim que se estava no caminho certo, viajando-se à velocidade da luz em direcção à eficiência e eficácia.
O Capitão Gancho não cabia em si de contente e para se aprimorar ainda mais, numa fria tarde de final de Outono mergulhou na FNAC do Chiado, tendo-se previamente inspirado nas lindas iluminações de Natal que emolduravam aquela parte nobre de Lisboa, e descobriu uma verdadeira pérola que o iria catapultar para o estrelato: MANUAL DE COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL, do Miguel Cunha e do Arménio Pina, RH Editora, deu três voltas à loja fingindo-se desinteressado ao mesmo tempo que ia fazendo contas de cabeça, mas depois de beber um café servido por uma atraente mulata da Cova da Moura, voltou atrás e lá desembolsou os 38,16 €.

IV – Chega um gestor

Rapidamente se conclui que tinha de se aumentar, de forma urgente e inadiável, o parque informático (computadores, impressoras a cores, etc, etc, etc……). Tudo aquilo, nas barbas do Sargento Formiga, cada vez mais limitado e atascado em serviço, porque além de tudo o que já fazia, ainda tinha que alimentar os mapas, mapinhas e gráficos do Capitão Gancho e dos seus acólitos, começando a entrar em stress com todos aqueles papéis e constantes reuniões, vendo o seu efectivo a ser paulatinamente sorvido pelo escalão superior.

Lido e devorado o manual, em tempo recorde, havia que tomar decisões e rumar em direcção ao futuro, todos se admiraram de tal feito, porque o senhor Gancho era mais dado à leitura dos diários desportivos (desde que devidamente pintalgados a encarnado) e às páginas três, quatro e cinco do Correio Matinal.

Uma das primeiras medidas foi contratar um quadro de topo, com conhecimentos de gestão e de alguns rudimentos jurídicos, para que se rumasse em definitivo para a excelência em termos de produtividade, e logo se pensou no Abusus. Este exigiu, para o seu gabinete, tapetes de Arraiolos, secretária e mobília em pau-preto, bem como uma poltrona especial, toda forrada em pele genuína, além de um sistema informático e de vídeo vigilância de última geração. Fez-se ainda acompanhar de um assessor, amigo de longa data e especialista na “arte de tudo bem resolver através dos canais informais”: o Triciclo.

Abusus todos os dias chegava feliz ao trabalho, e em grande estilo. Fazendo-se transportar num Mercedes SLK, acompanhado por uma loura oxigenada, toda curvilínea, depois de tomarem café na pastelaria da esquina, e de darem um terno beijo de despedida, ela seguia marginal fora, cabelos esvoaçando ao vento, óculos escuros Armani, bem olorada com “AMOR AMOR” da Cacharel, em direcção ao Bar do Guincho, para se encontrar com o grande amor da sua vida, ao que consta um rapaz alto, de cabelo curto e óculos escuros, vestido e equipado a rigor com artigos contrafeitos. Passados alguns instantes desapareciam, inevitavelmente, pela estrada da Malveira da Serra, provavelmente para desfrutar das magníficas paisagens que abundam naquela linda costa desde o Cabo da Roca até Peniche.

V – O Gestor em acção

Enquanto isso o Abusus, começou a delinear um plano estratégico de melhorias e de controlo orçamental para a área onde trabalhava o Sargento Formiga, o qual cada vez mais se sentia tolhido e sem capacidade de resposta, tanto a nível interno como externo, começando a ficar com uma tez amarelada, macilenta, evidenciando sintomas de astenia, tornando-se distante e olhando frequentemente em direcção ao vazio, mas acima de tudo denunciava alguma desmotivação. Logo a produtividade em vez de subir exponencialmente, começou a descer a pique, para níveis assustadores.

Abusus em estreita colaboração com o Capitão Gancho e os acólitos de ambos, tentaram encontrar explicações para o que estava a suceder, lançaram mão de tudo, até de um estudo sobre as condições climatéricas e a sua influência nos elementos ligados às diversas áreas da segurança. Mas nada resultou, foi uma luta inglória. Mais uma vez a solução passava por uma empresa de consultadoria. O Triciclo logo se lembrou de uma sedeada algures nas Avenidas Novas e gerida por uma sua amiga de longa data, a qual no dia seguinte entrou logo em campo.

Foi um mês de entrevistas, inquéritos, análise dos gráficos e dos relatórios. No final surgiu um extenso documento de cerca de quinhentas páginas, segundo o qual havia uma pessoa a mais no meio de toda aquela engrenagem: O Sargento Formiga. Concluindo-se ainda que de futuro não deveriam ser colocados sargentos a exercer aquelas funções, porque “não aguentavam a pressão de apertada supervisão visando o aumento exponencial de produtividade em direcção a um quadro de excelência”, levantando-se mesma a hipótese de extinção desta categoria.

VI – Epílogo

Tanto quanto sei, o Sargento Formiga, foi reformado, tendo sido considerado incapaz para todo o serviço, estando na base desta decisão problemas do foro psiquiátrico devidamente comprovados.

Passados alguns tempos, depois ter tido conhecimento desta história, fui a uma loja de uma cadeia de hipermercados e qual não foi o meu espanto quando vi uns seguranças fardados e equipados a rigor com tecnologia de última geração, ostentando como símbolo uma formiga musculada e por baixo a insígnia “ANT – SECURITY SERVICES”. Ao que consta é propriedade de um tal Armando dos Santos Formiga que rasga os céus do mundo num jacto privado, dominando por completo e em absoluto o mercado da segurança privada, com sucursais a nível mundial.

Quanto ao projecto de “aumento exponencial de produtividade em direcção a um quadro de excelência”, recorrendo “a uma apertada supervisão”, para Postos cujo desempenho fosse do tipo daquele que era demonstrado pelo de Vila Aluída, foi sub-repticiamente abandonado, desconhecendo-se o actual paradeiro dos respectivos intervenientes, dando tal facto origem a uma notícia minúscula, colocado, estrategicamente, no canto superior esquerdo da última página do Correio Matinal.

Notas Finais

Depois desta extensa história, onde como avisei no início, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência…….., vou beber uma água de coco com a minha Aldirene, à sombra dos verdes coqueiros, aqui neste areal imenso, banhado por águas cálidas e de seguida recolher-me com ela na nossa acolhedora “chácara”.

Túlio Hostílio

Sargentos da GNR recusam comer

Filed under: Sem-categoria — tuliohostilio @ 6:56 pm

Classe diz-se esquecida por ainda não terem aberto vagas para a sua categoria. São hoje recebidos por comandante

Sargentos de várias unidades da GNR recusaram ontem almoçar nas instalações da Guarda em sinal de protesto por não verem as suas carreiras serem regularizadas à luz do novo estatuto.

“O novo estatuto obriga à abertura de vagas para comando, e estas não foram abertas”, disse ao DN o sargento O’Neill, presi- dente da Associação Nacional de Sargentos da Guarda (ANSG), que incentivou o protesto que ontem decorreu.

De acordo com o responsável, foram abertas vagas para o cargo de adjunto de comandante, que são ocupadas por oficiais subalternos, mas não foram abertos lugares para adjunto de comandado, lugares estes ocupados pelos sargentos.

“Se fosse por uma questão económica, não tinham aberto vagas para coronéis, que implicam gastos superiores. Nós continuamos neste impasse”, refere o dirigente sindical.

O descontentamento da ANSG, cujos elementos recusaram ontem almoçar como forma de protesto, já chegou aos ouvidos do comandante-geral da GNR, tenente-general Nélson dos Santos, que agendou para hoje uma reunião com os militares.

Em cima da mesa estará também outra questão ainda não resolvida: o decreto-lei para o sistema remuneratório também entrado em vigor em Janeiro, mas ainda não posto em prática, o que desagrada aos sargentos.

Segundo a lei, o suplemento de serviço deveria ser aumentado progressivamente desde este ano até 2012 e os militares com funções de investigação criminal passam a receber um suplemento de 150 euros.

O DN contactou o porta-voz da GNR, mas até ao fecho desta edição não obteve reacção a este protesto dos sargentos.

DN 11/05/2010

Papa: GNR ensina forças inglesas, incluindo Scotland Yard

Filed under: Sem-categoria — tuliohostilio @ 6:41 pm

O major Barreto, da GNR, fala por estes dias mais inglês que português. É «anfitrião» em Fátima de 11 oficiais de várias forças inglesas, que estão a ter lições para quando o papa Bento XVI visitar o Reino Unido, em setembro.
Desde terça feira que a Scotland Yard e polícias distritais acompanham como foi preparada e está a decorrer a operação de segurança da deslocação de Joseph Raztinger a Portugal, onde permanecerá até sexta feira.
As visitas de líderes da religião católica a um território maioritariamente anglicano não são frequentes. E apesar de não se esperarem multidões, já se contam com riscos de um país que tem sido alvo de muitas ações terroristas.
«[a Inglaterra] Não terá multidões, mas terá riscos certamente diferentes dos que aqui existem. Até porque a Inglaterra em termos de exposição a situações terroristas será mais periclitante que o nosso país», lembrou à Lusa.
Os oficiais estão a receber informação e a colher experiências sobre o policiamento de grandes eventos, como está a «suceder em Fátima».
 
A escolha dos «professores» é explicada pelo responsável como o reconhecimento da GNR, «quer no campo das missões internacionais, quer do policiamento de grandes eventos».
«A GNR tem experiência e é considerada como um ‘case study’ de sucesso», garantiu.
As perguntas feitas até agora não se desviam do ‘guião’ que os próprios portugueses utilizam quando aprendem com seus os parceiros internacionais: «qual o conceito de operação; o porquê de ter tomado determinadas decisões em detrimento de outras e cuidados e precauções» nesta situação específica.
No decorrer da visita, a partir das 17:00 de hoje, é que poderão surgir «questões ou dúvidas mais pertinentes e interessantes», ou seja, que fujam à norma das questões debatidas entre polícias e militares.

Diário Digital / Lusa 12/05/2010

Maio 10, 2010

Louvor à GNR

Filed under: Forças de Segurança — tuliohostilio @ 7:29 pm

MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA

Gabinete do Ministro

Louvor n.º 244/2010

 Dando pública expressão ao profundo reconhecimento que lhe é inteiramente devido, louvo a Guarda Nacional Republicana (GNR) pela forma notável como tem cumprido as missões nacionais e internacionais que lhe foram atribuídas, prestigiando o País e honrado todos quantos ao longo de quase um século nela serviram.

Afirmando -se em todas as circunstâncias como uma força credível e de grande mérito, a destacada acção colectiva dos contingentes enviados para missões nos teatros de operações de Timor-Leste, do Iraque e da Bósnia -Herzegovina tem sido fundamental para o reconhecimento internacional do seu desempenho e a consolidação como instituição de referência entre forças congéneres.

Também a qualificada participação individual de militares da Guarda em missões como observadores ou colaboradores de organizações internacionais em Angola, no Kosovo, na Roménia, na Macedónia, no Haiti, na Libéria, na Costa do Marfim, na Geórgia, na Palestina e na República Democrática do Congo justificam o apreço em que é tida a presença da Guarda além -fronteiras, e os reiterados convites que lhe são dirigidos para participar noutras operações multinacionais.

Determinantes para a projecção da imagem da Guarda e do papel desempenhado pelo nosso País no apoio às nações em vias de desenvolvimento são, igualmente, as acções de formação levadas a cabo pelos militares da Guarda no âmbito da cooperação técnico -policial junto das forças de segurança dos Estados que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e da Região Administrativa Especial de Macau. O exemplar comportamento dos elementos da Guarda e a constatação da qualidade do seu trabalho têm levado à adopção, por parte das forças dos países lusófonos, dos seus modelos organizativos e funcionais e dos princípios em que assenta toda a sua actividade, assim ajudando ao reforço dos laços que unem estes países a Portugal.

Os altos padrões de excelência atingidos pela Guarda em missões internacionais têm sido possíveis graças não só à competência e qualificação dos seus profissionais, mas sobretudo à extraordinária capacidade demonstrada pelos homens e mulheres que nela servem para interagir e dialogar com povos de outras nações. Verdadeiros embaixadores do País e praticantes da diplomacia do afecto junto das populações, são dignos representantes daqueles que, no passado, difundiram a nossa cultura, a nossa história e os nossos valores pelos quatro cantos do Mundo.

Mas a Guarda não esgota na componente operacional o seu engenho para a divulgação externa do valor do militar português: também na vertente lúdica constitui um instrumento de eleição para a difusão da cultura e da arte nacionais. As actuações da Banda e da Charanga a Cavalo em festivais de música militar, em particular as exibições na Alemanha, no Brasil, na Bélgica, em Espanha, em França, na Holanda, em Inglaterra, em Itália, no Luxemburgo e na Suíça, conjuntamente com grupos pertencentes a forças armadas e de segurança de outros países, têm sido sempre consideradas de qualidade inigualável, surpreendendo pela inovação, pela criatividade e pelo primor técnico evidenciados.

Por tudo quanto fica expresso, é da mais elementar justiça considerar que os serviços prestados pela Guarda Nacional Republicana (GNR) se traduzem em altíssimo prestígio para Portugal, deles tendo resultado honra e lustre para o País, devendo, por isso, ser publicamente classificados como extraordinariamente importantes, relevantes e distintíssimos.

 20 de Abril de 2010. — O Ministro da Administração Interna, Rui Carlos Pereira.

Discurso Directo com Mário Mendes

Filed under: Forças e Serviços de Segurança — tuliohostilio @ 7:26 pm

1.     Bases de dados comuns

Está sobre a mesa há algum tempo a implementação de um sistema de segurança, chama-se-lhe o Google português, para unir a informação que circula dentro da PSP, da PJ, da GNR. Quando é que esse sistema vai estar implantado e que benefícios e vantagens pode trazer ao tratamento desta matéria de segurança?

Neste momento, em termos de investigação e prevenção do crime, o acesso à informação é fundamental. E, mais uma vez, aí se coloca a questão da optimização dos recursos que cada um tem. Essa optimização só poderá existir neste campo da partilha de informação a partir do momento em que cada órgão da polícia criminal, no âmbito e no quadro das suas competências, puder aceder à informação existente na base de dados do outro. Este acesso, sobretudo em matéria de prevenção, tem de ser online, não pode ser a mandar um ofício para o outro, esperar que o outro veja e responda também com um ofício.

Mas que tipo de informação vai ser partilhado e como vai ser partilhado?

Neste momento, cada uma das forças de segurança tem os seus sistemas de informação, carregados com dados relativos a pessoas, a viaturas, telemóveis, um conjunto de elementos que podem ser úteis à investigação criminal. A questão está em encontrar um sistema que, tornando compatíveis todas as bases de dados, permita que do seu posto de trabalho um elemento de uma força policial possa aceder a todo este conjunto de informação. A primeira opção que se colocou foi a junção de todas as bases de dados, criar um supersistema de informação. Considerou-se que isso era absolutamente errado, porque a gestão disto era difícil do ponto de vista também da protecção de dados.

Vai-se para uma espécie de motor de busca que actua sobre as três ou quatro bases de dados que existem?

Exactamente.

E esse sistema vai estar operacional quando?

Eu posso, de uma forma muito breve, contar a história. Esta é uma questão que já vem a ser falada desde 2000, a questão da interoperabilidade dos sistemas. Nunca encontrei nada feito, a não ser alguns artigos de opinião sobre isso, dizendo que era necessário. Só que em nove anos ninguém fez coisa nenhuma. Quando cheguei ali – até porque a própria lei aponta para essa necessidade e me estabelece como uma das obrigações do cargo garantir a interoperabilidade dos sistemas – estudámos imediatamente uma forma de conseguir esse objectivo exclusivamente com elementos das forças dos serviços de segurança. Foi tudo feito internamente.

Feito, quer dizer que já existe?

Existe uma plataforma protótipo. Apresentámos esse estudo à Comissão Europeia e obtivemos uma subvenção comunitária em 80% do custo.

Custo que é?

Ronda os dois milhões de euros.

E quando é que as polícias vão ter o sistema pronto a usar?

Poderá estar operacional, e terá de estar operacional de acordo até com as obrigações que assumimos perante a Comissão, até Outubro de 2011.

Há receios de que as pessoas que vão ter acesso a essa base de dados façam uma utilização abusiva? Há garantias de que isso não vai acontecer?

É óbvio que não há sistemas infalíveis, mas nós tivemos o cuidado, até com alguma preocupação a nível da protecção de dados, de criar alguns elementos de segurança que permitem, primeiro: quem tem acesso ao sistema, tem de obrigatoriamente introduzir o número do processo a que se destina a informação. Esse registo fica informaticamente feito também no próprio processo e tem de ter uma chave de acesso. Essas chaves de acesso são distribuídas de acordo com os níveis de acesso de cada uma das pessoas. Se tivermos níveis de um a cinco, ao nível um podem aceder todos os elementos da polícia, ao nível cinco já só pode aceder a tutela. De qualquer forma, sempre que há recurso ao sistema há, por assim dizer, uma impressão digital inapagável que fica lá e que diz que foi este senhor que às tantas horas consultou o sistema.

Mas, a partir do momento em que esse sistema estiver instalado, um qualquer cidadão português, não necessariamente um governante, se tiver um amigo numa determinada estrutura pode saber se está a ser investigado ou não?

Abstractamente pode. Agora, a pessoa se pede a informação tem de depois justificar para o que é que a pediu. E se a informação estiver a um nível a que aquela pessoa não pode ter acesso, não é acessível. Mas isso é possível hoje, só que em vez de ter um amigo precisa de ter três ou quatro.

É mais difícil, de qualquer forma.

É mais difícil.

Então vai ser mais fácil no futuro fazer isso?

Não vai ser mais fácil, dados exactamente os elementos de segurança que estão introduzidos no sistema e que o tornam difícil de ser acedido..

Quando foi director nacional da PJ sentia a necessidade de algumas destas transformações que hoje está a tentar protagonizar?

Já lá vão uns anos… É curiosa a velocidade com que isto se passa, porque eu saí da PJ em Dezembro de 1995 e quase não se usavam computadores. Estavam nessa altura a instalar-se, começavam a utilizar–se os primeiros sistemas informáticos e ainda havia muita gente da PJ a trabalhar com máquinas de escrever. Nenhum destes problemas se colocava na dimensão que tem hoje, apesar de ter sido exactamente no meu tempo que começou a revolução informática lá dentro, nomeadamente através de duas coisas: a questão do sistema AFIS, de comparação informática de impressões digitais, e através de algumas alterações feitas ao laboratório da polícia científica…

Agora já se fala no ADN.

Mas quem criou o primeiro laboratório de ADN dentro da PJ, quem fez a formação de pessoas fui eu, em 1994. Houve um elemento da PJ que esteve nos EUA um ano.

Mas depois deixámo-nos atrasar um pouco nessa via?

Eu não conheço suficientemente o que se passou depois, embora saiba que também houve algumas alterações e muita dessa parte das competências do ADN passaram para o Instituto Nacional de Medicina Legal. Houve alterações, não foi só deixar cair as coisas, foi passar a competência nessa matéria para outros institutos.

 

2.     “Em ano e meio de funções nunca falei a sós com o PM”

Um ano e meio depois de tomar posse nas polémicas funções de secretário-geral do Sistema de Segurança Interna, Mário Mendes garante que nunca foi pressionado pelo Governo. Prevê um aumento de perturbações sociais, na sequência da crise económica, mas garante que há planos de contingência a ser preparados pelas forças de segurança.

A criação do seu cargo, há cerca de ano e meio, levantou muita controvérsia por a lei o ter colocado na dependência directa do primeiro-ministro. Falou-se em governamentalização da segurança interna. Fala muito com José Sócrates?

Não. Mesmo muito pouco. Neste ano e meio de mandato que levo cumprido encontrámo-nos duas vezes em dois conselhos superiores de segurança interna e, fortuitamente, numa ou outra comemoração.

Em ano e meio, nunca falou com ele a sós?

Não. As competências de tutela do cargo foram delegadas no ministro da Administração Interna e, nessa medida, é com o ministro da Administração Interna que tenho de colocar as questões. Também não ocorreu nenhuma circunstância de tal gravidade que tivesse de colocar directamente ao primeiro-ministro.

Sentiu-se alguma vez condicionado pelo Governo nas suas decisões?

Nenhuma vez. Eu exerci funções de director da Polícia Judiciária, foi o primeiro cargo que exerci fora da magistratura, no tempo em que era primeiro-ministro o professor Cavaco Silva. E é uma coisa de que me recordo: nessa altura, enquanto director da Polícia Judiciária, nunca sofri qualquer espécie de pressão no sentido de conduzir as coisas desta ou daquela maneira.

Quais foram as maiores dificuldades que o seu cargo lhe colocou durante este ano e meio?

Fundamentalmente, foi a tentativa de mudar uma mentalidade que está instalada e que compartimenta muito a linha de actuação das diversas forças de segurança. Criar uma mentalidade de cooperação e coordenação não é fácil, é um trabalho que tem sido desenvolvido não só em termos daquela parte técnica que irá permitir a interoperabilidade dos diversos sistemas de operações mas na realidade do dia-a-dia, na cooperação que se estabelece no dia-a-dia.

Pela resistência das diversas forças de segurança a perderem o controlo sobre aquilo que consideravam serem os seus pelouros?

Nós temos um bocadinho essa ideia, dividimos muito o País em pequenos quintais. A mentalidade de minifúndio está bastante instalada neste país e é necessário que as pessoas, pelo menos quando entramos em campos da administração pública e da tutela do interesse público, potencializem ao máximo os recursos que estão disponíveis. E essa potencialização dos recursos passa pela instalação de uma mentalidade cooperante.

Ano e meio depois, pode dizer-se que os comandantes das diferentes forças aceitam melhor as ordens do juiz-conselheiro Mário Mendes?

Aceitam pelo menos as directrizes que vou estabelecendo, não propriamente ordens, porque legalmente não as posso dar. Mas aquilo que vai sendo estabelecido, falamos frequentemente a nível do Gabinete Coordenador de Segurança, estabelecemos exactamente estratégias comuns e as posições têm sido bem aceites.

Quando assumiu este cargo, defendeu uma tutela única para as polícias. Isso é um primeiro passo para uma polícia única em Portugal?

Não. É um passo importante exactamente naquilo que estou a dizer, na administração dos meios. Até perante a actual conjuntura económica e financeira, os recursos do Estado são escassos e têm de ser geridos de uma maneira tendente a optimizá-los. E essa optimização dos recursos passa, entre outras coisas, por haver uma gestão única dos meios.

Mas uma polícia única não?

Eu sou contra uma polícia única. Sou a favor daquilo que é considerado e que historicamente está consagrado no nosso país como um sistema dual, portanto, a existência de uma polícia civil e a existência de uma forma de segurança de natureza militarizada. Esta é uma construção típica dos países do Sul da Europa, um modelo muito francês adoptado também pelos espanhóis, pelos italianos e historicamente adoptado por nós. Quando falo em polícia única, estou a falar na questão de saber se faz ou não sentido a junção na mesma força e na mesma tutela da Polícia de Segurança Pública e da Polícia Judiciária. E esse cenário não o afasto, pelo seguinte: historicamente, a Polícia Judiciária nasce no pós-guerra, nos anos 50, como uma polícia directamente ligada ao Ministério Público. O Ministério Público tinha um braço armado, que era a Polícia Judiciária, os próprios magistrados do Ministério Público tinham poderes de Polícia Judiciária. Eu lembro-me: quando entrei para a magistratura do Ministério Público, em 1973, era o representante da Polícia Judiciária na comarca onde exercia funções. Simultaneamente, as chefias da Polícia Judiciária, a nível daquilo que hoje são os coordenadores, eram magistrados do Ministério Público. Os directores ou eram juízes ou eram magistrados do Ministério Público. Chegou a haver uma altura em que uma brigada investigava, o inspector-chefe da brigada acusava e chegava-se ao ponto de o director da polícia ter poderes de instrução criminal e decidir as medidas de coacção. Era tudo dentro da casa.

Mas hoje a magistratura e a polícia estão separadas.

Não há nada mais fora do Estado de direito, julgo eu, e das garantias dos cidadãos, do que isto. Hoje está separado!

Defende uma tutela única para as três polícias ou uma tutela única e duas polícias, uma militarizada e uma civil? Ou seja, PSP e PJ juntas?

Neste momento, a solução de uma tutela única ou mesmo a solução da existência de um cargo idêntico ao meu, mas com alguns poderes de tutela efectiva, que não tem, permitiria – e eu salientei isso no meu discurso de posse – preservar a história de cada uma das instituições e manter a tradição destes três corpos de polícia, não sendo necessária a junção de duas polícias numa só. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, a preservação da situação actual é mais consentânea com uma tutela única ou com um cargo que exerça essa tutela de charneira do que um sistema igual àquele que temos hoje.

Há menos de dois meses, e a propósito da partilha de informação com os espanhóis sobre terrorismo e crime organizado, o director da Polícia Judiciária, Almeida Rodrigues, foi duro a desvalorizar a unidade de cooperação policial criada por si. Ou seja, até para saber quem leva a informação aos espanhóis há uma certa desconfiança ainda instalada. Há ainda um longo caminho a percorrer? Como é que interpreta esta atitude da Polícia Judiciária?

Eu suponho que poderá ter havido um equívoco da parte dele, essa é uma questão que está esclarecida. Esse grupo que sai do memorando de cooperação entre Portugal e Espanha não é de forma nenhuma um grupo institucionalizado. É um grupo com uma geometria variável que reunirá com os espanhóis com uma formação que será de elementos da polícia com competência para tratar das matérias que vão ser objecto de conversação com os espanhóis.

A Polícia Judiciária olhava para esta unidade como tendo acesso a informação, e o senhor juiz-conselheiro tendo acesso a informação que não poderia ter, portanto, não faria sentido existir esta unidade.

É todo um equívoco, nem sequer assisto às reuniões! Não assisto porque acho que não devo assistir, profissionais da polícia estão muito mais à vontade a falar entre si do que se estiver uma qualquer tutela, seja eu, seja outra qualquer. Normalmente, quando se passa às reuniões operativas ficam aqueles que têm de tratar dos assuntos. E se é um assunto que está na competência da Polícia Judiciária, pois irá um representante da PJ que o senhor director designará. Agora, se for uma situação que interesse a mais do que um órgão de polícia criminal, pois irão representantes desse órgão. Há aqui mais uma vez um equívoco em relação à matéria de cooperação: a matéria de cooperação, estabelecendo-se no campo da investigação, isto é, quando há um inquérito pendente em Portugal irmos falar deste inquérito com espanhóis, isto significa que terão de ir as pessoas que são competentes para tratar do nosso inquérito falar com as pessoas que são competentes para transmitir a informação que nós pretendemos. Isso é uma questão mais vasta que se coloca no campo, por exemplo, da prevenção. Se vamos falar com os espanhóis, voltando ao terrorismo, por exemplo, sobre os novos modus operandi da ETA, é uma realidade que interessa a todos.

Mudou alguma coisa na organização do nosso sistema de segurança interna desde que se confirmou a existência de operações da ETA em Portugal?

Há um reforço óbvio de atenção em relação a essa situação. Isso passa até exactamente por isto que está a acontecer, um diálogo quase permanente com os espanhóis.

O terrorismo é uma ameaça real para os portugueses?

É uma ameaça real para todo o mundo. Nós não estamos imunes a que ocorra aqui qualquer acto dessa natureza.

Que outros tipos de crime organizado o preocupam, para além do terrorismo?

Mantém-se muita preocupação relativamente ao tráfico de droga, continuamos a ter muita atenção aos movimentos de tráfico e à permanente alteração das rotas desse tráfico.

Passa muito por Portugal, a caminho da Europa?

Passa, direi que de uma forma suficientemente grave. Tanto em Portugal, como pela Espanha, pela Holanda. Passa de uma forma que eu considero que é suficientemente grave para exigir de nós uma atenção muito especial. Há um outro crime a que nós temos de estar muito atentos, que é a questão ligada à imigração ilegal e ao tráfico de pessoas. As rotas do tráfico de droga começaram com a entrada a fazer-se por Espanha, pela costa sul de Espanha, nos anos 70, 80. Com a intensificação do controlo por parte dos espanhóis, as rotas desviaram em parte para a costa portuguesa, o que está hoje a suceder em Espanha com alguns fenómenos.

Não só no Sul como no Norte, da Galiza para o Norte de Portugal.

Exacto. Mas aí não se põe tanto este problema que estou a colocar, porque é trânsito vindo do sul, que é o de tráfico de pessoas e de imigração ilegal. Temos de estar atentos, pode começar a ocorrer também em Portugal.

Há informação nesse sentido, de que as rotas de tráfico de pessoas se preparam para fazer um desvio para as nossas costas, que são mais vulneráveis?

Informação propriamente não há. Há análise e há esse cenário como um cenário possível.

No relatório de segurança interna de 2009 foi feita pela primeira vez uma referência aos chamados bairros de risco. Que prevenção é feita nesses bairros?

Em primeiro lugar, e antes de tudo, tem de haver uma prevenção de natureza social.

Tem de haver – e há?

Talvez não haja suficientemente. Há uma preocupação social, uma preocupação educacional, uma preocupação em cuidados de saúde. Há todo um conjunto de políticas públicas que têm necessariamente de estar sempre a montante da intervenção do sistema policial. O sistema policial não é solução para nada, é a última…

E, no país em que vive, teme que a necessidade de gastar menos dinheiro possa ser um handicap a essa prevenção de que fala?

Pode ser, eu reconheci-o no ano passado. Quando foi publicado o Relatório Anual de Segurança Interna relativo ao ano de 2008, em que houve aquela subida de criminalidade, muita gente falou de o ano de crise de 2009 poder vir a acentuar aquela tendência crescente. Eu aí entendi que não, porque, em primeiro lugar, não há uma relação directa entre situação económica e crime. Em segundo lugar, porque entendo que enquanto o Estado tiver capacidade para oferecer algumas medidas compensatórias a situação mantém-se mais calma. Agora, nós este ano estamos num ano difícil, toda a gente o reconhece e já nem sequer ninguém esconde, provavelmente há um conjunto de prestações sociais que vão sofrer cortes. Eu não direi que isto vá dar necessariamente um aumento de criminalidade, mas vai com certeza dar um aumento de alguma perturbação social.

E essa eventualidade está analisada? Há esquemas de segurança previstos para um eventual agravamento da tensão social no nosso país?

Estamos a trabalhar no sentido de estabelecer alguns planos de contingência para algumas situações que possam ocorrer.

Está a estudar o caso da Grécia? As perturbações sociais que lá estão a decorrer estão a ser estudadas pelo seu gabinete?

No meu gabinete não, mas neste momento há grupos de estudo que estão a analisar esse sistema e que nos estão a manter acompanhados sobre essa situação.

Já estão definidas ameaças emergentes para este ano? De que grupos é que é expectável uma maior radicalização? Fala-se já nos camionistas, porque já assistimos há uns anos a um problema de ordem pública por causa da intervenção dos camionistas. As polícias estão preparadas para enfrentar possíveis alterações de ordem pública como aquelas que já aconteceram?

Não vou referir particularmente nenhuma situação, mas é óbvio que nessa matéria de perturbação social há sempre grupos de risco: grupos de tutela de interesses profissionais que tomam atitudes mais radicais, grupos colocados em determinadas franjas ideológicas – caso dos radicais, libertários – e grupos sociais de risco. É a tal questão que me colocou, algumas pessoas que residem em bairros de risco e potencialmente constituem um risco de alguma perturbação social. Isso não é novo – o movimento dessas pessoas é permanentemente acompanhado, pelos sistemas de informações das polícias e pelas avaliações que são feitas pelos próprios serviços de informações de segurança.

O general Leonel de Carvalho, que pode ser considerado o seu antecessor no cargo, embora com competências diferentes, fez há pouco tempo críticas duras à nova Lei de Execução de Penas e afirmou que Portugal estava a tornar-se num paraíso para criminosos. Que comentário lhe merecem estas afirmações?

Não sei o que é que o senhor general emitiu, não tinha visto sequer. É uma novidade para mim essa informação.

Ele estava sobretudo a referir-se à possibilidade de um condenado poder usufruir de um regime aberto ao fim do cumprimento de um quarto da sua pena.

Sim, abstractamente pode. Mas eu não tenho uma visão tão crítica dessa nova Lei de Execução de Penas. É óbvio que isto dá alguns poderes que aparentemente podem ser excessivos à administração penitenciária. De qualquer modo, os actos da administração penitenciária estão sujeitos – a lei prevê-o – a uma tutela jurisdicional. Portanto, a administração penitenciária não pode decidir pelo seu livre arbítrio, tem um controlo judiciário. Mas caímos num erro muito grande quando relacionamos directamente a questão das penas e da administração penitenciária com situações de paraíso dos criminosos.

Acha portanto que em 2008 a entrada em vigor do Código do Processo Penal, que também libertou alguns presos preventivos, não teve nada a ver com a criminalidade que existia nessa altura?

Com certeza que teve alguma coisa a ver – agora, que não foi causa única também não foi. Mas é diferente, o sistema retributivo da pena e o sistema da pena em termos de prevenção criminal são aspectos completamente diferentes. Teremos de chegar à conclusão de que em países que têm sistemas extremamente radicais – como é o caso dos EUA: um homicida está no mínimo sujeito a uma pena de prisão perpétua, com facilidade entrará na parte da pena de morte nos Estados que ainda a mantêm – não haveria ou haveria poucos homicídios. Não é isso que está demonstrado. Essa segunda questão: é óbvio que acarretou a libertação quase ao mesmo tempo de grande número de pessoas que são potencialmente delinquentes. Eu não estabeleço uma relação absoluta de causa e efeito, mas que algum contributo deu, com certeza que sim.

Mas essa expressão, de eventual paraíso de criminosos, não compartilha essas preocupações?

Não. Acho que, apesar de tudo, nos mantemos como um país tranquilo, embora não possamos viver com esta ideia permanentemente.

 3.   “Na visita do Papa a multidão constitui risco”

Quantos operacionais e meios é que estarão disponíveis para garantir a segurança do Papa em Lisboa, em Fátima e no Porto?

Eu não tenho ideia precisa do número, mas digo o seguinte: a necessidade dos meios vai sendo sempre adequada às realidades que vão surgindo, e essas realidades não têm só a ver com o grau de ameaça, que neste momento não nos traz um problema tão…

Está ao nível de um outro qualquer Chefe de Estado que visite Portugal?

Está. Está ao nível de um Chefe de Estado, estamos a falar de um Chefe de Estado com alguma dimensão. Mas estará ao nível de uma visita do Presidente francês ou do Rei de Espanha.

Mas não está ao nível da visita, por exemplo, de um Chefe de Estado como Barack Obama a Portugal? O sistema de segurança seria mais complicado de estabelecer com a visita do Presidente dos Estados Unidos da América?

Não, o nível de ameaça será relativamente o mesmo em termos de prevenção e de concepção de dispositivo. A questão está na deslocação ou não de elementos de segurança dos respectivos países. Há países, como é o caso dos EUA, do Presidente da Rússia, do Presidente chinês, por exemplo, que trazem grandes equipas de segurança deles próprios.

O Papa não traz?

Não são significantes os meios que traz o Papa, não são significativos e são facilmente enquadráveis, o que não sucede por exemplo na visita de um Presidente dos Estados Unidos, onde o número dos seus seguranças, americanos, muitas vezes, torna difícil a coordenação.

Está tudo a postos? O sistema está fechado, testado?

Está tudo a postos, estamos permanentemente a actualizar as questões. Há uma área que tem sido pouco salientada, mas é a área mais preocupante disto tudo – o problema do controlo e da gestão das multidões. O grande problema do Papa é que, sendo um Chefe de Estado, é simultaneamente um líder religioso que arrasta grandes multidões e há sempre um risco, o risco de controlo destas multidões. Não na perspectiva da segurança, mas numa perspectiva de safety.

IN DN 09/05/2010

Maio 7, 2010

Mapping Crime

Filed under: Prevenção do crime — tuliohostilio @ 12:35 pm

Devido à minha natural curiosidade relativamente a tudo o que se insira na constelação da segurança, visito com frequência os sites de outras forças e serviços de segurança a nível internacional. Numa das minhas últimas incursões “aterrei” na “Metropolitan Police[1], tendo ficado surpreendido, pela positiva, com o facto desta polícia inglesa ter online uma aplicação informática denominada “mapping crime”, a qual transmite ao cidadão comum uma panorâmica da criminalidade na cidade de Londres, atribuindo cores à malha territorial consoante o tipo e o nível de criminalidade que se vão fazendo sentir.

Mas, acima de tudo, esta aplicação é um excelente auxiliar do trabalho policial[2], podendo servir para direccionar as forças no terreno à medida que as ocorrências vão surgindo, levando à adopção das modalidades de acção mais adequadas para satisfazer uma das necessidades mais importantes do cidadão: a segurança.

Através deste mapeamento informático do crime, tem-se acesso a uma multiplicidade de dados, tais como:

a)      A localização;

b)     A tipologia criminal;

c)      O padrão;

d)     A distância; e

e)      A direcção.

Em Portugal, tanto quanto sei, no âmbito das medidas que já foram tomadas, e daquelas que se prevêem vir a ser tomadas no domínio da segurança interna, nada consta relativamente a esta ferramenta electrónica, a qual conjugada com outros equipamentos como o GPS, e com as bases de dados disponíveis permitiria às forças e serviços de segurança prestar um serviço de maior qualidade, tanto ao nível preventivo como repressivo.

Túlio Hostílio


[1] Disponível em  http://maps.met.police.uk/.

[2] Para maiores desenvolvimentos: http://www.ncjrs.gov/pdffiles1/nij/209393.pdf .

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