A Toca do Túlio

Novembro 24, 2008

Simulacro de sismo revelou «fragilidades» nos meios

Filed under: Protecção Civil — tuliohostilio @ 6:29 pm

O comandante operacional nacional da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), Gil Martins, disse que o simulacro de sismo permitiu detectar algumas «fragilidades», como falhas de comunicação e de gestão de informação.

 

«Nos últimos três dias apreendemos e foram detectadas algumas insuficiências», afirmou Gil Martins na conferência de imprensa de balanço do simulacro de sismo que decorreu desde sexta-feira até domingo nos distritos de Santarém, Lisboa e Setúbal, informa a agência Lusa.

O responsável admitiu que foram «encontradas fragilidades». Falhas de comunicação e de gestão de informação foram algumas das «insuficiências» avançadas por Gil Martins, que apontou ainda, sem pormenorizar, lacunas no empenhamento de algumas entidades nos teatros de operação. No entanto, salientou que «o exercício não foi feito para correr bem, mas sim para detectar as falhas e fragilidades».

Gil Martins acrescentou que «a aposta da Autoridade Nacional de Protecção Civil foi ganha com o finalizar do exercício», tendo marcado «um passo decisivo na aprendizagem» das autoridades envolvidas no simulacro. «Se houvesse um sismo amanhã estaríamos melhor preparados do que no dia de ontem», realçou, adiantando que o simulacro teve como objectivo fundamental «localizar e eliminar estrangulamentos antes que um sismo real ocorra».

O exercício teve também como finalidade testar e introduzir alterações no Plano Especial de Emergência de Risco Sísmico para a Área Metropolitana de Lisboa (PEERS-AML), que deverá ser aprovado pelo Governo até ao final de Março. De acordo com o comandante operacional nacional da ANPC, todas as entidades envolvidas vão reunir-se ao longo desta semana para elaborarem um relatório, além de se realizarem reuniões finais para revalidar o PEERS-AML.

No final do exercício, o sismo fictício provocou 281 mortos, 895 feridos e 808 desaparecidos em 16 cenários que envolveram 2.835 operacionais, 854 veículos e 1.798 figurantes.

No exercício estiveram envolvidas 68 entidades, desde Bombeiros, PSP, GNR, Forças Armadas, Aviação Civil, INEM, Cruz Vermelha Portuguesa, Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Polícia Judiciária, autarquias locais e Ministério Público.

Melhorar comunicações

A Administração Regional de Saúde da região de Lisboa e Vale do Tejo (ARS) defendeu a criação de um sistema de comunicação único e alternativo às redes móveis e fixas que permita a troca de informações entre hospitais em caso de catástrofe.

Manuela Lucas, a representante da ARS no exercício, admitiu que uma das falhas detectadas foi a da comunicação entre os hospitais num cenário de catástrofe. «Se houver uma catástrofe, não vai haver redes móveis e fixas», a única forma através da qual os agentes da saúde podem comunicar, explicou.

Segundo Manuela Lucas, a saúde conseguiu dar «uma resposta atempada» nos três dias do exercício, mas foram «detectadas algumas falhas nas comunicações», tendo em conta que não há um sistema alternativo às redes móveis e fixas em caso de catástrofe.

O INEM é a única entidade de saúde que integra o Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), que se destina dotar as forças de segurança e serviços de emergência num único sistema digital e que a protecção civil está a testar pela primeira vez no exercício. «É uma fragilidade grave» que as restantes entidades de saúde não integrem o SIRESP, disse, adiantando que esta «falha» deve ser corrigida.

In IOL Diário

Fevereiro 22, 2008

Bastou uma noite de chuva

Filed under: Protecção Civil — tuliohostilio @ 9:54 pm


Bastou uma noite de chuva, com 118 milímetros por metro cúbico, na zona de Lisboa e arredores, para que nossas tradicionais debilidades, em matéria de segurança (no domínio da protecção civil), fossem postas a descoberto.

De acordo com os registos, desde de 1983 que não chovia tanto, pois nesse ano a 19 Novembro ter-se-á registado uma precipitação de 129 milímetros por metro cúbico. Contudo estes valores quedaram-se pela metade daqueles que foram registados nas cheias de 1967.

Não obstante tal facto, a precipitação registada na noite de domingo para segunda, chegou para que o caos se instalasse, com inundações, trânsito cortado com intermináveis filas de trânsito, danos materiais e humanos, tudo entremeado com a habitual procissão de bombeiros acudindo onde podiam e como podiam.

Não deixando de ser significativo que enquanto o caudal começava a engrossar nas diversas linhas de água que circundam e atravessam Lisboa, Maria Elisa na RTP 1 promovia um debate sobre a questão das cheias. Mais uma vez, logo ali, ficaram a nu alguns problemas que têm persistido ao longo dos anos nesta matéria, os quais se relacionam, por um lado com a completa desordenação urbanística, por outro a falta de limpeza e manutenção das linhas de água, finalmente a desorganização e impreparação para lidar com ocorrências deste género.

Aliás, não pude deixar de notar, certamente como milhares de portugueses, a arrogância com que um elemento da protecção civil de uma autarquia dos arredores de Lisboa se dirigiu a Pacheco Pereira, quando este referiu que o parque de máquinas daquela autarquia estava situado junto a uma linha de água e mercê de tal posicionamento vulnerável às cheias impossibilitando o socorro com recurso a essas máquinas.

O elemento da protecção civil argumentou de imediato que com a construção e remodelação da ponte que aí existe, tal cenário estava afastado; é provável que com o raiar do dia se tenha dado conta que a afirmação proferida, perante as câmaras televisivas, não correspondia totalmente à verdade.

Depois, já com as operações de socorro em curso, um outro elemento da protecção civil, a propósito do veículo que foi arrastado pelas águas na Ribeira do Jamor, afirmou que a ocupante desaparecida seria rapidamente encontrada, dando ali uma certeza inabalável. Passados que foram alguns dias ainda não foi encontrada a vítima, não obstante as buscas já se terem estendido até à foz da referida ribeira, não sendo de afastar o cenário do cadáver vir a ser encontrado nalgum ponto afastado da costa portuguesa ou de algum país vizinho, tal como aconteceu com algumas vítimas da queda da ponte de Entre-os Rios.

Assim, nesta matéria nunca nos devemos esquecer que a força da natureza apenas é aparentemente controlável e que mais tarde ou mais cedo acabará sempre por vencer o homem. Temos é que envidar todos os esforços possíveis para que a derrota não seja humilhante, conjugando uma dose infinita de humildade, coragem e outras qualidades necessárias para este tipo de situações, com uma capacidade de aprendizagem permanente.

Portanto, tal como noutras vertentes da segurança, também aqui as debilidades estão tanto a montante como a jusante. A solução está em prevenir, evitando que estas situações assumam uma dimensão catastrófica. Mas também está na profissionalização do socorro, e no estabelecimento de planos que funcionem, para que não aconteça em ponto grande aquilo que ocorreu em Alijó a propósito da deslocação de uma ambulância para assistir a uma vítima de uma queda em ambiente doméstico.

Pois, há bens demasiadamente importantes para estarem entregue a um sistema assente no voluntarismo, embora este também seja necessário (mas de forma acessória), limitando-se a profissionalização a algumas, poucas, cidades.

Daí que rumando contra ventos e marés se tenha criado o GIPS/GNR, e que tem conseguido resistir a toda a campanha de intoxicação de que sistematicamente é vítima. Tem-no conseguido graças aos resultados obtidos no terreno prevenindo e combatendo incêndios. Não deixando de ser significativo que quando esta estrutura da GNR cria uma nova valência de imediato é imitada pelos seus detractores. Só que a estes últimos, tal como num produto contrafeito, entre outros factores, falta-lhe a matéria prima de qualidade, neste caso a massa humana, o saber (nas suas múltiplas vertentes), o equipamento, a organização hierarquizada com uma capacidade de resposta que está no patamar da excelência.

Dado que esta força de segurança, em termos de protecção e socorro, pode intervir em todo o território nacional, causou-me alguma estranheza que o GIPS/GNR não tivesse sido visto a operar no teatro de operações, ou se operou não apareceu nos ecrãs televisivos. Deve ter imperado o receio que à semelhança do que aconteceu com os incêndios, isto viesse a provocar alguns amargos de boca muito boa gente.

A continuarmos como estamos, resta esperar que em futuras situações deste género, tudo corra pelo melhor, confiando que a tipíca capacidade de improvisação portuguesa, a qual tão eficazmente consegue substituir um parafuso por uma bocado de arame de fardo, nos livre do pior.

Túlio Hostílio

Site no WordPress.com.