A Toca do Túlio

Fevereiro 22, 2008

Bastou uma noite de chuva

Filed under: Protecção Civil — tuliohostilio @ 9:54 pm


Bastou uma noite de chuva, com 118 milímetros por metro cúbico, na zona de Lisboa e arredores, para que nossas tradicionais debilidades, em matéria de segurança (no domínio da protecção civil), fossem postas a descoberto.

De acordo com os registos, desde de 1983 que não chovia tanto, pois nesse ano a 19 Novembro ter-se-á registado uma precipitação de 129 milímetros por metro cúbico. Contudo estes valores quedaram-se pela metade daqueles que foram registados nas cheias de 1967.

Não obstante tal facto, a precipitação registada na noite de domingo para segunda, chegou para que o caos se instalasse, com inundações, trânsito cortado com intermináveis filas de trânsito, danos materiais e humanos, tudo entremeado com a habitual procissão de bombeiros acudindo onde podiam e como podiam.

Não deixando de ser significativo que enquanto o caudal começava a engrossar nas diversas linhas de água que circundam e atravessam Lisboa, Maria Elisa na RTP 1 promovia um debate sobre a questão das cheias. Mais uma vez, logo ali, ficaram a nu alguns problemas que têm persistido ao longo dos anos nesta matéria, os quais se relacionam, por um lado com a completa desordenação urbanística, por outro a falta de limpeza e manutenção das linhas de água, finalmente a desorganização e impreparação para lidar com ocorrências deste género.

Aliás, não pude deixar de notar, certamente como milhares de portugueses, a arrogância com que um elemento da protecção civil de uma autarquia dos arredores de Lisboa se dirigiu a Pacheco Pereira, quando este referiu que o parque de máquinas daquela autarquia estava situado junto a uma linha de água e mercê de tal posicionamento vulnerável às cheias impossibilitando o socorro com recurso a essas máquinas.

O elemento da protecção civil argumentou de imediato que com a construção e remodelação da ponte que aí existe, tal cenário estava afastado; é provável que com o raiar do dia se tenha dado conta que a afirmação proferida, perante as câmaras televisivas, não correspondia totalmente à verdade.

Depois, já com as operações de socorro em curso, um outro elemento da protecção civil, a propósito do veículo que foi arrastado pelas águas na Ribeira do Jamor, afirmou que a ocupante desaparecida seria rapidamente encontrada, dando ali uma certeza inabalável. Passados que foram alguns dias ainda não foi encontrada a vítima, não obstante as buscas já se terem estendido até à foz da referida ribeira, não sendo de afastar o cenário do cadáver vir a ser encontrado nalgum ponto afastado da costa portuguesa ou de algum país vizinho, tal como aconteceu com algumas vítimas da queda da ponte de Entre-os Rios.

Assim, nesta matéria nunca nos devemos esquecer que a força da natureza apenas é aparentemente controlável e que mais tarde ou mais cedo acabará sempre por vencer o homem. Temos é que envidar todos os esforços possíveis para que a derrota não seja humilhante, conjugando uma dose infinita de humildade, coragem e outras qualidades necessárias para este tipo de situações, com uma capacidade de aprendizagem permanente.

Portanto, tal como noutras vertentes da segurança, também aqui as debilidades estão tanto a montante como a jusante. A solução está em prevenir, evitando que estas situações assumam uma dimensão catastrófica. Mas também está na profissionalização do socorro, e no estabelecimento de planos que funcionem, para que não aconteça em ponto grande aquilo que ocorreu em Alijó a propósito da deslocação de uma ambulância para assistir a uma vítima de uma queda em ambiente doméstico.

Pois, há bens demasiadamente importantes para estarem entregue a um sistema assente no voluntarismo, embora este também seja necessário (mas de forma acessória), limitando-se a profissionalização a algumas, poucas, cidades.

Daí que rumando contra ventos e marés se tenha criado o GIPS/GNR, e que tem conseguido resistir a toda a campanha de intoxicação de que sistematicamente é vítima. Tem-no conseguido graças aos resultados obtidos no terreno prevenindo e combatendo incêndios. Não deixando de ser significativo que quando esta estrutura da GNR cria uma nova valência de imediato é imitada pelos seus detractores. Só que a estes últimos, tal como num produto contrafeito, entre outros factores, falta-lhe a matéria prima de qualidade, neste caso a massa humana, o saber (nas suas múltiplas vertentes), o equipamento, a organização hierarquizada com uma capacidade de resposta que está no patamar da excelência.

Dado que esta força de segurança, em termos de protecção e socorro, pode intervir em todo o território nacional, causou-me alguma estranheza que o GIPS/GNR não tivesse sido visto a operar no teatro de operações, ou se operou não apareceu nos ecrãs televisivos. Deve ter imperado o receio que à semelhança do que aconteceu com os incêndios, isto viesse a provocar alguns amargos de boca muito boa gente.

A continuarmos como estamos, resta esperar que em futuras situações deste género, tudo corra pelo melhor, confiando que a tipíca capacidade de improvisação portuguesa, a qual tão eficazmente consegue substituir um parafuso por uma bocado de arame de fardo, nos livre do pior.

Túlio Hostílio

7 comentários »

  1. A mim palpita-me que um destes dias chove tanto,
    que morremos todos afogados.😉

    Comentar por vieira calado — Fevereiro 22, 2008 @ 10:45 pm | Responder

  2. lol… Olá… vim aqui ver como vai o saneamento … as nuvens pregam cada partida…
    A Falta de estruturas é para continuar pois… gastar o dinheiro dos nossos impostos em diversão é mto melhor para esses senhores… emfim..
    Obrigado pela visita beijos nublados

    Comentar por f@ — Fevereiro 23, 2008 @ 12:12 am | Responder

  3. Túlio
    Adorei o teu comentário lá no meu outonodesconhecido.
    Obrigada

    Comentar por jasmim — Fevereiro 23, 2008 @ 7:20 pm | Responder

  4. há cheias e enxurradas! uma boa “enxurrada”, precisa-se!

    abraços

    Comentar por heretico — Fevereiro 23, 2008 @ 9:06 pm | Responder

  5. Nada que não estivesse previsto, ainda no dia anterior no Programa da Maria Elisa no canal 1 da RTP, parece que foi de proposito!!!
    saudações

    Comentar por geninho — Março 5, 2008 @ 11:55 am | Responder

  6. …estou acompanhando seu blog com o objetivo de fazer uma comparação entre a polícia de meu Estado com as demais polícias do mundo…bonito blog parabéns

    abraço

    Florianópolis – Santa Catarina -Brasil

    Comentar por Tijolo Quente — Março 7, 2008 @ 5:12 pm | Responder

  7. Infelizmente, neste pais, raramente as coisas são precavidas com antecedência!… E depois é sempre a mesma situação ano após ano, época após época.
    Beijocas grandes

    Comentar por sei que existes — Março 13, 2008 @ 7:28 pm | Responder


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