A Toca do Túlio

Janeiro 23, 2008

Urbanismo e crime

Filed under: Prevenção do crime — tuliohostilio @ 10:45 pm

São constantes as referências à relação que existe entre o urbanismo e o crime. Em Setembro do ano passado, enquanto estava parado num semáforo de Lisboa, fui presenteado com um diário gratuito, onde Manuel Ferreira Antunes, ex-director da Polícia Judiciária se referia a este assunto. Afirmando que o “desenho urbanístico e a iluminação deficiente das ruas tornam as cidades mais perigosas”, o que advém do facto de ninguém com capacidade para aconselhar sobre esta matéria intervir na definição dos arruamentos, dos ângulos mortos ou da iluminação, no sentido de desconstruir o risco. 

Pretendendo-se desta forma dificultar o cometimento de crimes em determinados espaços, implementado determinadas barreiras reais ou simbólicas, as quais aumentam o risco do infractor ser detectado, ao mesmo tempo que se vão dignificando os locais com a recuperação e preservação arquitectónica, melhorando as infra-estruturas de apoio, os serviços e os respectivos equipamentos. 

Contudo, este conjunto de medidas e outras que gravitam em seu torno, inserem-se no âmbito da denominada prevenção situacional, a qual aborda o crime como sendo uma opção racional, utilitária, instrumental, altamente selectiva (espaço adequado, momento oportuno, vitima propícia) pelo que propugna uma intervenção especificamente dirigida a neutralizar as oportunidades, as situações de risco que se tornam mais atractivas para o infractor, levando em linha de conta diversas variáveis (temporais, espaciais) deixando-se intactas as raízes profundas do problema criminal, atacando-se as formas como se manifesta. 

E no domínio do urbanismo e da habitação, não nos podemos esquecer que ao longo das últimas décadas do Séc. XX, o interior de Portugal, em termos demográficos, foi desaguando no litoral, mais concretamente nas grandes cidades do litoral. Iniciando-se todo um vasto processo de construção clandestina que desembocou nos designados “bairros de génese ilegal”, onde pontificam exemplos como Casal de Cambra, bem como um mar  de aglomerados abarracados, designados por bairros de lata. Enquanto os primeiros foram sendo progressivamente legalizados; os habitantes dos segundos foram, de uma forma, mais ou menos progressiva, transferidos para os denominados bairros sociais, nalguns casos verdadeiros “guethos”, sendo os terrenos livres entregues à voracidade da especulação imobiliária. Existindo hoje, em Lisboa e no Porto, cerca de 700 a 800 mil pessoas a viver neste tipo de bairros, os quais são fustigados por todo um vasto e complexo conjunto de problemas ao nível social, como seja a toxicodependência, vivendo uma significativa fatia dos seus habitantes do rendimento social de integração. 

Por isso, nesta área, tal como noutras, a prevenção do crime não pode estar, apenas, ligada a uma perspectiva situacional, nem às estatísticas. Porque, no primeiro caso, trata-se de uma terapia semelhante à administração de analgésicos e anti inflamatórios para tratar uma infecção que exige antibióticos; no segundo caso, as estatísticas deixam sempre de fora as denominadas cifras negras, e em Portugal, em matérias relacionadas com a criminalidade há uma excessiva tendência para decidir de acordo com as estatísticas, as quais são importantes, mas devem de ser conjugadas com outros métodos e técnicas. 

Pelo que no domínio da prevenção criminal, além dos efeitos, também as causas têm de ser atacadas, neutralizando os problemas antes que eles se manifestem, o que tem de ser efectuado em diversas vertentes (educacional, de integração, habitacional, de trabalho, de bem-estar social e qualidade de vida) operando sempre a médio e a longo prazo, tendo como destinatários a generalidade dos cidadãos, procurando neutralizar o surgimento de um conjunto de variáveis que potenciem a entrada no mundo do crime. Permitindo o acesso a uma qualidade de vida satisfatória, pois, se a predisposição para a actividade delinquentes pode ser potenciada por condições de vida desfavoráveis, têm de ser promovidas alternativas eficazes a quem vive nas zonas pobres e marginalizadas, dando-lhe oportunidade de participar no bem estar social.  

Através de uma prevenção integrada e sistematizada, levando em linha de conta os seus diversos prismas, certamente, as cidades do futuro tornar-se-ão mais atractivas e inverter-se-á a tendência da polarização entre condomínios de luxo e bairros sociais, devolvendo às pessoas o gosto pela rua, pelo contacto social pela interacção. Evitando-se a confinação ao interior do apartamento ou da vivenda, devidamente, apetrechados com as últimas novidades em termos de equipamentos de segurança de acordo com a bolsa de cada um.   

Talvez se este tipo de visão tivesse sido adoptado atempadamente, o Vasco Graça Moura, não teria ficado indignado, com as fotografias sobre algumas zonas degradadas da capital portuguesa expostas na Place du Luxembourg (traseiras do Parlamento Europeu), tal como, também, ficaram os portugueses que tiveram conhecimento de tal facto através da leitura de um artigo deste escritor no Diário de Notícias. 

Túlio Hostílio

15 comentários »

  1. Sem dúvida que o desenho das cidades influencia o comportamento das suas populações. Uma medida que por vezes se tenta, à socapa, é fazer urbanizações em que metade é habitação social e a restante “normal”. Caso as pessoas não se sintam enganadas, e estejam na disposição de tentar contribuir para a reinserção social dos mais desfavorecidos, talvez seja por aí o caminho.

    Comentar por Rafeiro Perfumado — Janeiro 23, 2008 @ 11:59 pm | Responder

  2. Aqui está um a boa análise de um problema preocupante! É pena que o MAI não se debruce sobre esta a~estão e se limite a fazer de nós parvos, falando de estatísticas e querendo mostrar optimismo balofo e parvo.
    Não pode haver soluções consistentes se forem ignoradas as causas. So atacando estas se consegue evitar, prevenir. e lá diz o ditado que «cale mais prevenir do que remediar».
    Agradeço a visita e o comentário deixado em Do Mirante e espero passar a ter mais comentários seus que irão valorizar as vistas sobre os temas que por lá aparecem.
    Um abraço

    Comentar por A. João Spoares — Janeiro 24, 2008 @ 5:25 am | Responder

  3. Estimado e Deslumbrante Amigo:
    Retracta com profundidade e de forma plenamente conseguida uma problemática importante à sociedade em que nos inserimos e temos que nela existir.
    Sabe, talentoso amigo, inclino-me mais neste assunto, para a miséria de que as pessoas são alvo, vivendo sem recursos ou qualquer forma digna de emprego. O urbanismo e, subjacente a ele, a iluminação e as deficiências de segurança dos cidadãos abarca um conjunto de factos relevantes, mas que não explicam, nem são factores predominantes ao crime e violência que vivemos e assistimos no quotidiano da nossa existência.
    Se existe crime é porque existem atitudes desajustadas de inserção social precárias condições de vida, fome, miséria, toxicodependencia incontrolável, fome e desasjustamentos emociais de sobrevivência originados por circunstâncias essenciais que falham e a que todo o Ser Humano tem pleno direito de reinvindicar.
    Não há dinheiro porque as políticas que nos governam não contemplam estes plenos cidadãos que dele necessitam para viver. Qual a solução deles? Roubar, é óbvio e claro. Há violência porque nutrem e exigem de quem de direito da necessidade de se munirem do essencial para viver com um mínimo de dignidade e bem-estar.
    A educação dos cidadãos tem que passar por medidas políticas sensíveis e imprescindíveis para eles. É necessário educá-los, ouvi-los e às suas preocupações, direccionarem-nos para Assistentes Sociais e médicos do foro psíquico que os auxiliem.
    Portugal tem que se ajustar ao progresso das sociedades pacatas, igualitárias e que dignifiquem as suas gentes para usufruirem de toda a magia do existir.
    OBRIGADO pelo seu amor às pessoas. Pelo que talentosamente escpressa e pela sua preocupação por um Portugal lindo num abismo social profundo e manifesto.
    Excelente a sua abordagem. Adorei!
    Abraço forte de amizade e estima.
    Com imenso respeito e consideração.

    pena

    Comentar por Pena — Janeiro 24, 2008 @ 9:06 pm | Responder

  4. […] Recomenda-se in A Toca do Túlio “Urbanismo e Crime”  […]

    Pingback por Cidade sem medo « Conexão — Janeiro 25, 2008 @ 3:32 am | Responder

  5. Pertiente a questão da influência do desenho urbano e da segregação urbana na conduta e interacção dos individuos. Acabei por ir escrever sobre o assunto.. post “cidade sem medo” em dalpestana.wordpress.com

    Comentar por dalpestana — Janeiro 25, 2008 @ 3:57 am | Responder

  6. O concelho de Oeiras está a ‘sentir na pele’ os tais ‘guethos’ em ascenção nos bairros sociais de realojamento dos antigos moradores em barracas e habitações clandestinas e, nem mesmo o facto de em alguns dele terem sido construídos fogos para habitação jovem e habitação a custo controlado tem resolvido o problema da marginalidade e do elevado número de indíviduos que povoam durante o dia as esquinas desses bairros e que vive do subsídio de reinserção. Esses apartamentos tem sofrido uma enorme desvalorização assim como os condomínios de gama alta que se encontram nas proximidades.

    Que o desenho da malha urbana e a iluminação são de extrema importância para a diminuição da criminalidade é um facto assim como o rendimento per capita, a capacidade de oferta de emprego e a educação / instrução.

    []
    I.

    Comentar por Isabel Magalhaes — Janeiro 25, 2008 @ 5:48 pm | Responder

  7. Outra análise contundente e precisa deste problema que aflige a todos, meu caro.

    Comentar por Roger — Janeiro 25, 2008 @ 6:55 pm | Responder

  8. O tempo tomou conta da minha vontade… corre veloz ao sabor do vento…
    Contudo… mesmo num desejo rápido, estou aqui… nem que seja apenas para desejar um bom fim de semana.
    E parto… de novo sem promessas, porque não sei quando me será permitido voltar, fica então a vontade de regressar, um dia destes quando o tempo permitir…
    Que fique o meu beijo e que dure pelo momento de ausência no espaço de um até breve.
    Nadir

    Comentar por Nadir — Janeiro 25, 2008 @ 10:17 pm | Responder

  9. Não tenho dúvida que a devida manutenção do cenário urbano é um dos fatores que diminuem a atuação criminosa. Aqui no Brasil as favelas são verdadeiros bunkers, onde traficantes tentam implantar estruturas paraestatais. Mas, como foi dito aqui, não basta a preocupação com o urbanismo sem a atenção às causas primeiras da criminalidade – pobreza, desamparo social, familiar…

    Comentar por Danillo Ferreira — Janeiro 26, 2008 @ 1:16 am | Responder

  10. uma abordagem bem interessante. o urbanismo e a criminalidade.

    sem dúvida não se pode combater o crime sem conhecer as suas diversas causas…

    abraços

    Comentar por heretico — Janeiro 27, 2008 @ 10:30 pm | Responder

  11. Devias tambem frisar, que a maior parte dos bairros sociais esta localizada junto de grandes auto estradas (ha muitos assim no Porto) ou em locais de ficam no meio de nada. No primeiro caso, as pessoas nao tem descanso de dia e de noite e no segundo ficam isoladas socialmente de tudo!

    Comentar por Manuel de Panoias — Janeiro 29, 2008 @ 2:35 pm | Responder

  12. De facto em diversas áreas urbanas as pessoas têm cada vez mais medo de sair de casa, porque perto, e bem perto há o crime à espreita, provavelmente devido às más condições de vida que prevalecem em bairros sociais… E tanto mais haveria a dizer sobre esta questão…

    Gostei do texto.

    Beijo

    Comentar por Vera — Janeiro 31, 2008 @ 12:24 pm | Responder

  13. excelente abordagem, bom de certa forma como vc melhor que eu descreve, a arquitetura pode sim contribuir com a criminalidade…
    aqui no Brasil, bom infelizmente a situação ainda é pior, mas acreditamos que um ponto de partida seria mesmo a educação, o oferecimento de oportunidade de inclusão, principalmente para as crianças e jovens marginalizados que acabam aderindo a vida criminosa como oportunidade de “emprego”…
    Eu acredito honestamente que a sociedade separar, ou colocar a margem estas comunidades não resolverá problema algum, mas com o aumento de participação destas pessoas na sociedade, grandes mudanças podem ter inicio… Na verdade não vamos fazer isso hoje e ver tudo resolvido amanhã. Será como plantar uma semente e ver a árvore desenvolvida anos depois, mas o que não podemos é ficar esperando que elas cresçam automaticamente…
    Que venham dias melhores para todos nós!!!

    Comentar por Raquel — Janeiro 31, 2008 @ 4:56 pm | Responder

  14. Crime… não falta por ai…
    Bjx

    Comentar por Nadir — Fevereiro 15, 2008 @ 9:57 pm | Responder

  15. […] “Urbanismo e Crime” in A Toca do Túlio « Cidade-Jardim Cidade compacta » GostoBe the first to […]

    Pingback por Cidade sem medo « UrbScape — Abril 29, 2011 @ 2:18 pm | Responder


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