Os oficiais da GNR, formados na Academia Militar, criaram uma nova associação e alertam para a politização da guarda.
Os oficiais da GNR estão contra a utilização das Forças Armadas (FA)em operações de segurança interna. Nas suas primeiras declarações públicas, o presidente da nova e inédita associação de oficiais desta força de segurança, licenciados pela Academia Militar (AM), manifesta uma veemente oposição a esta possibilidade. Na última semana, a participação das FA na segurança foi defendida por vários altos responsáveis, incluindo pelo próprio secretário-geral do Sistema de Segurança Interna, Mário Mendes.
No entanto, para o major José Marques Dias, que dirige a Associação Nacional de Oficiais da Guarda (ANOG), este cenário “não traz nenhuma mais-valia” à segurança dos portugueses. Este oficial, em funções no Comando Operacional da GNR, sustenta que “a ameaça terrorista transnacional, largamente propagada (em abstracto) como fundamento para as alterações constitucionais que permitam o emprego das FA na segurança interna, é irreal”.
O major garante que este “risco” não tem qualquer “reflexo nas informações da intelligence e pode ser até gerador de sentimentos alarmantes e de insegurança, de uma cultura de medo, que não correspondem minimamente à nossa realidade social, política e social e até estratégico-militar”.
A ANOG considera que o actual quadro legal, nomeadamente a Constituição, já define as situações em que a FA podem actuar na segurança interna (em estados de sítio ou de emergência) e não vê “necessidade de fazer qualquer alteração”.
‘Cortar’ com o Exército
Sobre a organização da GNR, esta associação defende que os oficiais generais oriundos do Exército, que comandam a guarda, possam vir a “integrar os quadros da GNR”, de forma a criar “vínculos mais profundos e um conhecimento melhor” desta força de segurança. “Neste momento, de uma forma geral, os generais passam pela GNR cerca de dois anos, o que não contribuiu em nada para se identificarem com os nossos problemas”, alega José Dias.
A ANOG vê também com alguma preocupação “a demasiada dependência da GNR de determinadas opções políticas com impactos operacionais negativos”. Escusando-se a concretizar a crítica, o major lembra que, na reorganização recente da GNR, “teve mais influência a decisão política que os critérios de mais-valia operacional”.
A defesa dos interesses sócio-profissionais dos oficiais é um dos principais objectivos da ANOG. Na lista de prioridades está reivindicar algumas regalias sociais, como a extensão dos apoios à saúde aos cônjuges, tal como nos militares das F.A. “Se somos militares em termos de estatuto, de disciplina e deveres, também temos de o ser nos direitos. Não somos militares de 2.ª”, assevera José Dias. O presidente garante que a ANOG “não quer ser um problema para a tutela, mas contribuir para as “soluções” que melhor sirvam o País.
In DN de 30/06/2010