Como o tempo disponível é sempre diminuto, tenho-me abstido de escrever, limitando-me de tempos a tempos a efectuar alguns “recortes de imprensa” que considero mais relevantes em matéria de Segurança.
Motivo pelo qual me penitencio perante os habituais leitores deste espaço, e que são bastantes, o que muito me apraz.
Não obstante a condicionante atrás citada, não posso deixar de passar em branco uma notícia publicada no Diário de Notícias, sobre os cem dias da PSP no lugar da GNR. É já, sobejamente, conhecida a minha posição sobre esta questão, expressa desde o primeiro momento e penso que sem qualquer margem para dúvidas.
A citada notícia baseia-se numa entrevista efectuada ao senhor presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia, o qual tece diversas considerações que, na minha perspectiva, deverão ser merecedoras de alguns reparos.
1. Deixa desde logo, transparecer a ideia de que apenas a PSP ocupou áreas que do antecedente eram da GNR e que o inverso não terá acontecido, o que não corresponde à realidade dos factos, logo, tanto são “cem dias” para uma força como para outra no policiamento de novos espaços.
2. Depois afirma-se que as Esquadras da PSP estão abertas 24 horas e que os Postos/Subdestacamentos da GNR encerram às 20H00. Deixando no ar a ideia que a partir dessa hora, nas áreas onde o policiamento é efectuado pela GNR não existe nenhum elemento desta força de segurança a prestar serviço de atendimento ao público.
Ora, isto não é verdade, porque o patrulhamento é assegurado no exterior, de acordo com aquilo que é considerado necessário e tendo em conta as possíveis limitações em termos de meios humanos e materiais. No que concerne às portas dos quartéis da GNR, estas estão encerradas a partir de determinada hora, embora não sendo aquela que é indicada na entrevista, mas uma outra que não refiro por motivos de segurança, estando as instalações, sempre, guarnecidas com militares destinados a atender os cidadãos que ali se dirigem pelos mais variados motivos. E isto, durante as 24 horas do dia, com excepção dos Postos de Atendimento existentes nalgumas localidades do interior, e mesmo assim com indicações sobre o local onde os cidadãos se devem dirigir a partir a partir do momento do seu encerramento, à semelhança daquilo que acontece noutros países da Europa considerados dos mais evoluídos nesta matéria.
Portanto, a única diferença, não é de substância, mas de forma. Num caso a porta está aberta, no outro está fechada, em ambos os casos há elementos das forças de segurança para atender o cidadão quando disso necessite. Trata-se de uma opção que está indissociavelmente ligado ao estatuto de cada uma das forças de segurança, militar num dos casos, civil no outro, sendo que em termos de segurança é inquestionavelmente preferível a opção da “porta fechada”, como aliás já se provou em determinado momento da nossa história recente.
3. Refere-se, seguidamente, o ilustre sindicalista à existência de áreas dispersas e divididas com a GNR. Foi uma opção do Governo a reorganização do dispositivo territorial das forças de segurança, a qual obedeceu a determinados parâmetros, não podendo deixar de existir áreas limítrofes, havendo povoações que embora estejam integradas em áreas da PSP ficam mais perto da GNR e vice versa, daí não vem mal nenhum ao mundo, até porque em termos de efectivação de denúncias criminais o Código de Processo Penal é bastante claro, tal como a legislação conexa. Embora isso inflacione as estatísticas da criminalidade de quem recebe a denúncia, o que afinal parece ser o principal problema. Mas, não nos podemos esquecer que as duas forças de segurança pertencem ao mesmo ministério e nos termos da lei orgânica do Ministério da Administração Interna (DL 203/2006 de 27 de Outubro) “têm por missão defender a legalidade democrática, garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos, nos termos do disposto na Constituição da República e na lei”.
Situação mais caricata é a persistência dos ilhéus da PSP em diversas localidades do território nacional, tais como Torres Vedras, Torres Novas, Abrantes, isto só para citar alguns casos, espero que numa próxima reorganização essas situações sejam ultrapassadas e que o exemplo de Fátima seja suficientemente dissuasor de algumas campanhas de intoxicação que surgem ciclicamente quando se toca nesta questão.
4. Relativamente à área de Sintra, denota-se também algum desconhecimento dos factos, tal como nos restantes casos que são relatados, porque não há soluções milagrosas, a única que havia era a poção do Astérix. Dado que se tratam de áreas muito complexas em termos sociais, onde a abordagem não pode ser exclusivamente policial, mas transdisciplinar, ou seja integrando diversos vectores, sendo o policial um deles, entre muitos outros. O que facilmente se constata através do rol de roubos de automóveis (vulgo carjacking), assaltos a estabelecimentos com recurso a armas de fogo, tudo amplamente divulgados pelos meios de comunicação social especializados na divulgação deste tipo de notícias. Sendo relatado no Correio da Manhã de 07/04/2008 que “o aumento da criminalidade no concelho de Sintra levou a Direcção Nacional da PSP a apostar no reforço da unidade responsável pelo patrulhamento na zona. Assim, e por determinação do novo director nacional, superintendente-chefe Oliveira Pereira, foram criadas as Equipas de ReacçãoTáctica (ERT) – unidades com, no máximo, dez agentes. Os elementos das ERT foram escolhidos a partir do efectivo do Grupo de Operações Especiais (GOE) e do Corpo de Intervenção (CI). Começaram a patrulhar várias freguesias do concelho de Sintra na época da Páscoa. O êxito, ao que o CM apurou, foi imediato. A dissuasão de crimes de furto, roubo por esticão e assaltos à mão armada levaram à redução dos índices de criminalidade no concelho. Inicialmente pensadas só para a época da Páscoa, as ERT mantêm-se a patrulhar o concelho de Sintra. Estas equipas deverão, em breve, passar a patrulhar também o concelho da Amadora.” Mas é essa mesma imprensa que faz eco de diversos roubos violentos, contemporâneos da implementação deste tipo de dispositivo:
a. Cacém – “Encapuzado e de arma em punho, dirigiu-se ao proprietário do café Cantinho da Anta, no bairro da Anta, em Agualva-Cacém, e murmurou: “Velho, isto é um assalto. Passa para cá o dinheiro todo.”
b. Belas – Ainda não eram 11h00. Valdemar Silva, de 39 anos, estava sozinho na ourivesaria Figueirinha, em Idanha, Belas, concelho de Sintra. Viu um jovem aproximar-se da porta e foi abri-la. O que parecia um simples e bem vestido cliente era afinal um dos quatro assaltantes armados que queriam roubar a ourivesaria.
c. Linha de Sintra – Seis pastelarias em dez dias, apenas na Linha de Sintra, “só surpreende pela obsessão das pastelarias”, garante uma fonte policial.
d. Linha de Sintra – Cerca de 200 indivíduos lançaram na noite de domingo para segunda-feira o pânico num comboio da Linha de Sintra. Entraram na composição na estação da Tapada das Mercês, roubaram passageiros e foram saindo em grupos para apedrejarem o comboio, em várias ocasiões, no percurso até à Damaia. Quatro polícias ficaram feridos e apenas foi efectuada uma detenção.
e. Cacém – Um jovem de 18 anos foi esfaqueado, ontem, por um colega de 17 anos, no interior da Escola Secundária Matias Aires, no Cacém. O caso aconteceu às 09.30 e o ferido foi transportado para o hospital Amadora-Sintra.
f. Mem Martins – Hoje, quando os empregados do McDonald’s de Mem Martins se preparavam para iniciar mais um dia de trabalho, o inesperado aconteceu: De uma carrinha Audi A4, que posteriormente se veio a saber que tinha sido roubada momentos antes também em Mem Martins, saíram 4 jovens encapuzados, 3 deles munidos de pistola e outro com uma caçadeira, que irromperam pelo restaurante exigindo toda a quantia existente nas caixas registadoras.
De onde se conclui, com relativa facilidade que a melhor solução não será a utilização deste tipo de equipas, muito semelhantes àquelas que se fazem transportar pelas favelas do Rio de Janeiro no famoso “caveirão” e também elas muito ligadas à filosofia SWAT.
5. Finalmente, os índices de criminalidade não se determinam, apenas, em função da criminalidade denunciada/participada, pois temos de ter sempre presentes as famosas cifras negras e as cifras cinzentas. Daí ser, no mínimo, precipitado afirmar que a criminalidade está a aumentar ou a diminuir numa determinada área, porque estas estatísticas, têm de ser conjugadas com uma série de outros instrumentos sociológicos, onde se incluem os inquéritos de vitimação, para a partir daí se extraírem conclusões mais próximas da realidade.
Não podia terminar sem referir a conotação histórica que tem a expressão “cem dias”. Em 1814 Napoleão abdica, é assinada a paz e Luís XVIII sobe ao trono. Mas em 1815, dez meses após ter saído do poder, Napoleão escapa do seu exílio forçado na ilha de Elba e desembarca em Cannes com 1.200 soldados. Contudo, a Europa coroada não admite o retorno daquele que considera um “usurpador” e, mais uma vez, unida, prepara a sua derrocada. Durante cem dias, de Elba à segunda abdicação, Napoleão vê-se envolvido numa rede de intrigas e traições, manifestações de profunda lealdade, de extrema coragem ou de vergonhosa cobardia, actos que delineiam o cenário dessa aventura que culminou com a Batalha de Waterloo e o desterro em Santa Helena.
Efectivamente não é uma expressão que encerre em si bons augúrios….
Túlio Hostílio